O Convento Franciscano

O histórico das intervenções na construção

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Podem ser identificadas algumas fases relativas à construção do Convento. A primeira correspondeu às construções iniciais, entre a chegada dos franciscanos em 1585 e o abandono do convento por ocasião da invasão holandesa em 1630. A segunda fase iniciou-se com a reconstrução empreendida a partir de 1654, ano da expulsão dos holandeses, e estendeu-se durante todo o século XVIII, quando o convento atinge sua forma atual. Uma terceira fase acontece após as restrições das ordens religiosas impostas no final do período colonial, as quais levaram a um lento processo de declínio do convento ao longo do século XIX. A quarta fase foi inaugurada em 1937, com a criação do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (SPHAN, hoje IPHAN) e o tombamento nacional do convento no ano seguinte, quando ocorreu o reconhecimento oficial do valor histórico e artístico do convento, e as ações, com a ação direta ou supervisão do IPHAN, foram voltadas para a conservação e restauração.
Primeira fase: a chegada dos franciscanos e a ocupação inicial

Os franciscanos desembarcaram em Olinda no dia 12 de abril de 1585. O terreno doado para as primeiras instalações do convento detinha um forte declive para o litoral e isso iria determinar a lógica de crescimento do convento mediante ampliações que, na maioria das vezes, tiveram de recorrera aterros e à construção de muros de arrimo.

As primeiras construções recebidas pelos frades franciscanos não satisfaziam ao crescimento da ordem e logo foram iniciadas as ampliações. Esta ampliações foram feitas gradativamente até 1630, quando Pernambuco foi tomado pelos holandeses. É difícil precisar exatamente o que estava construído, mas uma análise dos mapas e gravuras produzidos na época da invasão holandesa pode fornecer importantes indicações sobre a configuração inicial do convento.

Figura 1.24: Gravura Marin D’Olinda, detalhe mostrando o Convento Franciscano
Figura 1.24: Gravura Marin D’Olinda, detalhe mostrando o Convento Franciscano

No detalhe da estampa intitulada Marin d'Olinda (Figura 1.24), observa-se um modesto conjunto em estilo chão português, uma arquitetura econômica e utilitária. As fachadas são sinceras e traduzem fielmente a volumetria do edifício.Em relação aos edifícios religiosos vizinhos, O Seminário dos Jesuítas e a Igreja da Sé, o conjunto franciscano apresenta-se mais modesto, embora os três monumentos apareçam em tamanho similar nos mapas da época, o que leva a concluir que o convento não era tão pequeno quanto se tem dito, mas sim que deveria ter um caráter mais horizontal, esparramando-se sobre o terreno (Figuras 1.25 e 1.26).

Figura 1.25: Mapa de Olinda de 1648 (detalhe) Figura 1.26:Mapa de Olinda de 1648 (detalhe)
Figura 1.25: Mapa de Olinda de 1648 (detalhe) Figura 1.26:Mapa de Olinda de 1648 (detalhe)

São claramente visíveis, na Figura 1.24, dois edifícios colados no corpo da igreja, saindo perpendicularmente em direção à encosta. Certamente construídos nessa primeira fase de obras, esses edifícios viriam a conformar o claustro. Durante a ocupação holandesa, o corpo da igreja estava definido, embora ainda sem a galilé, sem a sacristia e sem os elementos decorativos
Segunda fase: a reconstrução após a expulsão dos holandeses

O conjunto franciscano, como outros monumentos de Olinda, foi alvo de destruição pelos holandeses. Em 1654, logo após os holandeses assinarem a capitulação, os frades reocuparam o Convento e iniciaram sua reconstrução. Não há, em termos de documentos, meios de esclarecer a forma exata como ocorreu essa reconstrução, mas supomos que tenha aproveitado parte das paredes não destruídas. No entanto, a análise do edifício, mesmo sem prospecções maiores, pode indicar datas para partes da construção. Existem indícios de que parte das construções que rodeiam o claustro são anteriores a 1630 e há registros de que os painéis de azulejos do claustro, a última intervenção para finalizá-lo, foram aplicados entre os anos de 1734 e 1745 (Mueller, 1961: 35)

A fachada da igreja, como visto no item anterior, foi construída em etapas. A galilé era inicialmente saliente ao corpo da igreja e aberta para os lados. A parte superior dessa fachada teria uma solução mais sóbria, com o seu coroamento em frontão triangular e clássico. Com as obras de reconstrução iniciadas em meados do século XVIII, ela adquiriu a feição atual, incorporada ao corpo da igreja, com a parte superior da fachada apresentando seus elementos decorativos mais efusivos. Já em relação ao interior, sua capela-mor foi reedificada em torno de 1715 e os painéis de azulejos terminados em torno de 1745 (Jaboatão, 1858-62: 407-08). A igreja foi gradativamente recebendo elementos decorativos ao longo do século XVIII.

Em relação à sacristia, os elementos construtivos e arquitetônicos mostram que a construção teve sua conclusão por volta de 1660. O edifício da portaria, contendo a Capela de Santa Ana, e as duas bibliotecas, foi construído entre os anos 1753 e 1754, e possui uma grande unidade construtiva e decorativa. Tal unidade, aliada ao seu formato cúbico, permite distingui-lo claramente do resto da construção, já que aparece como engastado na antiga quadra do primeiro convento.

A Capela dos Terceiros Franciscanos teve sua construção iniciada em 1711, situada de forma perpendicular em relação à igreja da Ordem Primeira. O arco que emoldura a abertura da capela dos Terceiros para a nave da Igreja de Nossa Senhora das Neves foi revestido com uma bela obra de talha, de linguagem e execução eruditas da época de D. João V. A sacristia dos Terceiros, ao lado da capela, foi decorada com pinturas que remetem ao último quartel do século XVIII.

O atual bloco conventual pode ser datado como da segunda metade do século XVIII. Pressupõe-se que os frades, logo ao terminarem o claustro, tivessem ampliado aquela antiga quadra conventual com um novo bloco em direção ao sul, por meio de aterros e muros de arrimo para conformá-la àdeclividade da ladeira. Do lado do mar, junto à esse corpo, foi construída uma grande cisterna, com magníficas abóbadas de tijolos. Por cima dessas abóbadas, foi criado o terraço.

Portanto, pode-se concluir que após esse ciclo de obras de meados do século XVIII, e com os trabalhos de decoração efetuados até o final daquela centúria, o convento encontrou, em linhas gerais, a sua forma definitiva.
Terceira fase: declínio e estabilização no século XIX

Em 1855, o Império Brasileiro proibiu a admissão de noviços nas casas religiosas conventuais, fato que atingiu duramente os franciscanos, levando à decadência do convento. Essa decadência atingiu seu ápice no final do século XIX, quando o convento foi abandonado. Após a República permitir a vinda de religiosos estrangeiros, frades da Província Saxônica da Santa Cruz da Alemanha começaram a assumir os conventos (Mueller, 195: 140-1). No caso do convento de Olinda, os frades, ao assumirem em 1901, fizeram reparos e alterações internas, como a cozinha hoje existente no antigo pátio do bloco conventual e as celas individuais criadas por meio de divisórias onde existiam dormitórios coletivos. Os frades construíram ao longo do século XX novos edifícios anexos ao convento, como o salão Pio X (que ruiu em 1951), a atual lavanderia e depósitos
Quarta fase: conservação e restauro após o tombamento

Em 1937, foi criado o Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional e o Conjunto Franciscano de Olinda foi um dos primeiros a ser tombado, já em julho do ano seguinte. Esse fato demarcou uma nova fase na história do conjunto, pois, a partir dessa data, houve o reconhecimento oficial de seu valor histórico e artístico, a ação do governo federal, e a intencionalidade da conservação e restauração da edificação.

Foto 1.27: Renovação do telhado na década de 1940
Foto 1.27: Renovação do telhado na década de 1940

As primeiras obras não tiveram início imediatamente, mas em meados da década seguinte. O primeiro ciclo de obras foi concluído em 1949 e objetivava a renovação de estruturas de parte dos telhados (Foto 1.27), a renovação dos rebocos e a pintura e consertos de esquadrias. É importante salientar, entretanto que um edifício de tal magnitude sempre requisita novas obras à medida que os pontos mais críticos passam a ser sanados.De fato, mal terminavam as obras em uma parte do monumento e uma outra começava a necessitar de reparos.

O conjunto adentrou em um segundo ciclo de obras que se estendeu entre o início da década de 1950 e o final da década de 1960, embora com uma série de interrupções, como a documentação disponível no atual IPHAN e as crônicas do convento atestam. O período de 1953 a 1956 foi dos mais profícuos em termos de obras, incluindo a restauração de boa parte de seus bens artísticos, como talhas e azulejos (Foto 1.28). A restauração dos ornamentos da Capela da Ordem Terceira foi iniciada com a recuperação do forro em artezoados. Atacados pela salinidade, os azulejos estavam muito danificados nas partes próximas ao nível do piso (Foto 1.29). Na Capela da Portaria e no claustro os azulejos foram refixados. Os vazios de peças que faltavam foram preenchidos com massa, para evitar que pudessem ser retirados por furto (Livro de Crônicas: 251, 258). O IPHAN ainda empreendeu neste período a reforma do telhado e do madeiramento do andar superior, substituindo quase todas as traves, assim como boa parte das telhas. Os trabalhos prosseguiram nos anos seguintes com a reforma do telhado do bloco conventual e da sacristia, com a renovação do travejamento de sustentação do coro da igreja e do assoalho do bloco conventual.

Foto 1.28: Restauro de talhas
Foto 1.29: Azulejos danificados na sacristia
Foto 1.28: Restauro de talhas Foto 1.29: Azulejos danificados na sacristia

Um terceiro ciclo de obras pode ser identificado nos anos 80, com os grandes trabalhos de recuperação da sacristia. As grandes rachaduras nas paredes laterais e o forte desnivelamento do piso da sacristia, que já eram notados desde os anos 50, anunciavam o risco de colapso (Figura 1.30).Foram feitos trabalhos de consolidação de fundações, na qual que se aplicaram estacas profundas, tirantes inclinados e cintas de concreto armado, além da construção de uma base de concreto que suporta a sacristia (Figura 1.31). Todos os painéis de azulejos e foram desmontados e restaurados, assim como as pinturas forro de caixotões.

Foto 1.30: Rachaduras na Sacristia
Foto 1.31: Obras de consolidação da sacristia
Foto 1.30: Rachaduras na Sacristia Foto 1.31: Obras de consolidação da sacristia

Entre 1998 e 2005, um novo ciclo de obras inaugurou-se desta vez com recursos captados em boa parte pelo próprio convento. Em 1998 foi trocado todo o madeiramento do piso do bloco conventual, o qual se encontrava carcomido. Em 2004, o IPHAN refez toda a instalação elétrica do convento, a qual estava em estado precário e oferecia sérios riscos de incêndio. Em 2005, com recursos do Ministério da Justiça, foram trocadas todas as telhas da coberta, parte do madeiramento e introduzidas mantas durafoil para evitar o aparecimento de goteiras.
 

A arquitetura

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O complexo franciscano de Olinda foi resultado de sucessivas adições e reformas, visto que foi formado por conjunto de blocos interligados. A melhor forma de se realizar uma análise da sua arquitetura é tomar como referência os blocos principais.

O claustro é o espaço principal do complexo, já que as outras unidades e espaços arquitetônicos gravitam em torno dele (Foto 1.11). É um espaço de meditação que possui origem nos monastérios medievais. Claramente inspirado em protótipos renascentistas, o claustro écercado por graciosas arcadas, de ordem toscana. As características desta colunata indicam que a construção do claustro não pode ser anterior ao século XVIII. Ele possui dimensões relativamente modestas e é marcado pela sobriedade e despojamento, embora suas proporções se mostram bastante refinadas.

Foto 1.11: Claustro
Foto 1.12: Fachada e torre da igreja
Foto 1.11: Claustro Foto 1.12: Fachada e torre da igreja

A fachada atual apresenta frontispício dividido horizontalmente em três partes: a primeira consiste na galilé, com colunas e arcadas; a segunda apresenta as três janelas do coro, de verga e com ornatos de cantaria; e na terceira apenas aparecem o frontão em volutas e o nicho central com imagem, encimado por pináculos e cruz (Foto 1.12). Verifica-se a existência de duas fases construtivas nesta fachada: uma que corresponde à galilé, e outra que corresponde aos andares superiores, fruto de reforma ou modernização posterior. A galilé, ou o nártex reentrante, foi uma adição à primitiva fachada, avançando sobre a rua. Com as obras de reconstrução iniciadas em meados do século XVIII, ela adquiriu a feição atual, incorporada ao corpo da igreja, com três grandes portas em arco. Há uma clara hierarquia e rigidez da arquitetura chã portuguesa. As aletas e volutas, entretanto, provêm um grande movimento que contrasta com a regularidade do conjunto e confere unidade entre os dois pavimentos superiores, quase queos transformando em um grande frontão. Os pináculos fecham a composição provendo um tom ascendente à fachada. A torre única é recuada da fachada e possui sineira em arco pleno, coroada por cúpulas de arestas com pináculo piramidal.O recuo da torre revela-se uma solução engenhosa na medida em que liberta o frontispício para ser totalmente simétrico.

A nave central possui planta retangular e pé-direito duplo. É uma nave única, com a capela-mor pouco profunda e mais estreita. O interior destaca-se pela ornamentação composta por painéis de azulejos e talha retratando cenas religiosas. Os altares colaterais, barrocos do final do século XVIII, emolduram o arco cruzeiro, que é pouco decorado (Foto 1.13). A capela-mor tem um teto abobadado, acompanhando o arco cruzeiro e as tribunas laterais. Acima da galilé e no começo da nave, encontra-se o coro apoiado em uma estrutura de madeira (Foto 1.14).

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Foto 1.13: Nave e altares laterais Foto 1.14: Nave e coro

A sacristia está localizada atrás da igreja, colocada transversalmente e ocupando toda a largura da nave central. Seu volume possui duas arcadas salientes ao corpo retangular e em uma delas se encontra um belo lavatório de mármore de Lioz. Uma das mais belas das construídas pelos franciscanos, sobretudo pela azulejaria e pelo magnífico forro, formado por octógonos nos quais se encaixam losangos que retratam frutas e plantas (Foto 1.15).

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Foto 1.15: Sacristia
Foto 1.16 Capela de São Roque

A capela de São Roque (Foto 1.16) foi construída perpendicularmente à nave central da igreja do convento, sendo ligada a ela por meio de um grande arco, inteiramente revestido de madeira entalhada. Essa maneira singular de relacionar os dois ambientes de culto é uma característica freqüente nos conventos franciscanos do Nordeste. O forro em artezoados impressiona pela beleza e harmonia das formas e desenhos.O conjunto de talha e pintura da capela possui uma unidade muito grande foi executado entre o final do século XVII e o início do século XVIII. O complexo da Ordem Terceira inclui ainda a sacristia dos terceiros, situada ao lado direito da Capela, uma Casa de Oração paralela à igreja da Ordem Primeira, uma sala para assembléias e reuniões, que possui dois andares e avança em direção à rua.

O bloco que contém a Capela de Santanna, ou da Portaria, e a biblioteca, finalizado em 1754, foi engastado no conjunto e feito com o intuito de se tornar a entrada principal do complexo. É um volume que se destaca por sua composição simétrica e seu formato cúbico. Possui cobertura em quatro águas com amplos beirais à sua volta. Emoldurada por largas pilastras de pedra, a fachada apresenta uma ortogonalidade austera. No térreo, existe a Capela de Santa Ana, que possui planta simétrica (Foto 1.17). Na parede ao fundo da sala está situado o altar de Santa Ana, em estilo barroco português. Ao redor de toda a sala há um belo painel de azulejos, provavelmente do século XVIII e uma admirável pintura do forro. A biblioteca principal localiza-se no segundo pavimento, acima da Capela da Portaria. Seu teto é contornado por elegante cornija, sendo todo composto por painéis a óleo, tendo com centro um quadro da Virgem.

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Foto 1.17: Capela de Santanna Foto 1.18: Capela do Capítulo

A Capela do Capítulo abre-se para o claustro e, apesar de pequena, é uma das mais belas dos conventos franciscanos (Foto 1.18).Ela é revestida internamente por azulejos que remontam à fase da reconstrução do convento após os holandeses, provavelmente em torno de 1660. Na talha do retábulo dessa sala capitular ainda não está presente a exuberante decoração barroca e ainda se pode perceber a marcação da estrutura arquitetônica. Em suma, no interior da sala, talhas, azulejos e as pinturas do forro de madeira harmonizam-se de forma sublime, conferindo um exemplo marcante do final do século XVII.

Locado rente à rua e ao lado do bloco da portaria, está o maciço bloco das celas conventuais. (Foto 1.19). Originalmente em forma de U, hoje tem a forma de um quadrado, quando a face leste foi construída em meados do século XVIII. Suas alas são cobertas por um telhado em duas águas. Como o bloco da portaria, também possui suas esquinas marcadas por largas e robustas pilastras. A fachada do bloco apresenta, no térreo, uma serie de óculos e, nos dois andares superiores, janelas de vergas retas, estreitas e altas. Possui um robusto embasamento de pedra que acompanha a linha do piso do bloco da portaria e da igreja.

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Foto 1.19: Bloco conventual Foto 1.20: Terraço mirante com cisterna e relógio de sol

A partir da colocação da laje de cobertura da cisterna, criou-se um terraço a céu aberto, conformado por duas robustas paredes caiadas do volume conventual, formando um dos espaços mais propícios para a meditação e recolhimento do convento (Foto 1.20). É um espécie de claustro, com duas de suas faces abertas para o verde da encosta e para o azul do mar e do céu, elementos que atestam o caráter divino.

O adro é um dos mais marcantes elementos de integração entre a arquitetura do Conjunto e o sítio histórico (Foto 1.21). Ele é um elemento plástico urbano e não arquitetônico, porque é um espaço aberto, tirando partido da topografia e tomando a or um triângulo com base na da reentrância da fachada do Conjunto (fachada da igreja e do bloco da portaria) e pelo ponto focal criado pelo cruzeiro

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Foto 1.21: Adro na década de 1980

O Complexo Franciscano de Olinda é composto por um conjunto de blocos que se ligam internamente e se adaptam aos declives do terreno. O programa franciscano era uma forma matriz com inúmeras possibilidades de disposição e combinação, sabiamente adaptadas às circunstâncias locais. Localizado em sítio exclusivo, um morro com declive acentuado em direção ao mar, o núcleo inicial do complexo foi construído em um dos poucos pequenos platôs (Foto 1.22). A partir de então, foi crescendo por adição e reformas em uma perfeita adaptação aos acidentes do terreno. Nessa adaptação do conjunto ao sítio, estabelece-se uma relação poética com a paisagem urbana e natural (Foto 1.23).

Foto 1.22: Vista geral, década de 1970
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Foto 1.22: Vista geral, década de 1970 Foto 1.23: Fachada oeste

Embora esses elementos arquitetônicos tivessem origem na vida monástica medieval, a flexibilidade com que foram empregados confere caráter único aos conventos franciscanos no Brasil. A singularidade desse conjunto, como de outros conjuntos franciscanos, reside menos em seus elementos tipológicos e mais na forma como eles foram articulados entre si e distribuídos no espaço. Em outras palavras, o que torna este exemplar da Escola Francisna único é articulação dos espaços e volumes.

Por fim, restam a simplicidade e a sinceridade da arquitetura franciscana. Em vários pontos do convento, notam-se essas respostas claras e francas, como nos vigamentos de madeira a repousarem diretamente sobre o arenito das colunas toscanas do claustro; no azul cobalto dos painéis de azulejos, em contraste com as calmas paredes caiadas; nos grandes beirais que geram ambientes sombreados; nas pequenas aberturas retangulares a emoldurarem a paisagem; nas portadas e cercaduras de cantaria, que delimitam as janelas, e na simples articulação da arcada renascentista do claustro. A originalidade e o valor estão na simplicidade, unidade e coesão dos elementos arquitetônicos e espaciais. Essas características reforçam a expressão franciscana da língua portuguesa, como termo que indica simplicidade, franqueza e abnegação, características essas presentes nesse Conjunto.

 

A significância do conjunto

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A importância da Igreja e do Convento de Nossa Senhora das Neves para o patrimônio cultural foi reconhecida em 1938, quando do seu tombamento, mas ainda não foi realizado um esforço para estabelecer a significância cultural do bem tomando-se como referência seus valores patrimoniais excepcionais e sua autenticidade. Esta é a tarefa desta secção.

O Conjunto Franciscano de Olinda sofreu intervenções de restauração e adaptações contínuas, algumas de grande vulto, durante a segunda metade do século XX, e teve grande parte de seus rebocos, telhas e estruturas de madeiras substituídos. Verifica-se que estas intervenções, em termos de restauro e conservação tiveram como orientação o uso de técnicas e materiais contemporâneos, algumas vezes de forma radical (e talvez necessária), como foi o caso das obras empreendidas na sacristia, nos anos 1980, onde predominou o uso do concreto armado. Os materiais e técnicas construtivas tradicionais foram desprezados, sendo evidente a perda de autenticidade desses segmentos. As intervenções foram marcadas por certa prudência devido aos poucos recursos financeiros disponíveis para as obras. No que se refere à contribuição dos trabalhos para a elaboração de uma história do edifício, tais intervenções pouco ajudaram, porque foram feitos poucos registros e anotações para esse fim.

Os conventos franciscanos no Brasil foram construídos em etapas, dependendo dos recursos disponíveis, por serem os frades da ordem mendicante. Por isso, observa-se que nem sempre os conventos possuíam uma composição regular, embora suas plantas nos dêem uma clara demonstração de unidade e coesão do projeto. O Conjunto Franciscano de Olinda é um exemplo disso, pois mesmo tendo sido edificado desde o século XVI, e resultado de uma série de adaptações, transformações e adições ao longo do tempo, conseguiu manter uma forte unidade arquitetônica. Além disso, o conjunto demonstra a adaptação ao terreno e ao entorno onde está inserido.Isso aconteceu porque a estrutura conventual possui uma lógica de crescimento que se mantém intacta desde seu início. Os registros iconográficos e históricos mostram que havia um lento e gradual crescimento por meio de alas que saíam do corpo da Igreja de forma perpendicular, e que se juntavam posteriormente formando um quadrado com um pátio interno, como foi visto no claustro e no pátio do bloco conventual.

Nesse sentido, a autenticidade do conjunto enquanto à forma arquitetônica, à implantação paisagística, à ornamentação e aos materiais e sistemas construtivos foi mantida. Observam-se, por outro lado, maiores perdas foram ocasionadas pela não-continuidade do uso das técnicas construtivas tradicionais. A declaração de significância que se segue fundamentou-se nos elementos autênticos do conjunto.

A declaração de significância
O Convento de Nossa Senhora das Neves possui valores que o fazem um dos mais significativos exemplares do patrimônio histórico e artístico do Brasil. Dentre os vários valores identificados do Convento, cabe ressaltar quatro que lhe conferem significância cultural exemplar.

Em primeiro lugar, ressalta o valor histórico de o convento ser o primeiro implantado em terras brasileiras no ano de 1585, ainda nos primórdios da colonização, tornando-o a matriz da expansão da ordem franciscana no território nacional.

Em segundo, o convento possui um valor artístico excepcional pela solução estética que integrou a paisagem, a implantação urbanística, a arquitetura e a ornamentação em um todo harmônico. O convento é um dos mais bem conservados e íntegros conjuntos da escola franciscana de arquitetura e decoração que se formou no século XVIII, que reformou e implantou vários conventos de grande qualidade no Nordeste brasileiro, seguindo uma concepção integrada entre paisagem, arquitetura, elementos decorativos, materiais e técnicas construtivas. Além do valor artístico, existe um valor cognitivo especial do convento como uma peça essencial para a compreensão do desenvolvimento da arquitetura luso-brasileira e da formação e desenvolvimento da escola franciscana de arquitetura na Colônia.

Em terceiro, cabe enfatizar o valor paisagístico do conjunto, como o caso excepcional de solução de integração arquitetônica em um ambiente urbano e natural extremamente complexo, segundo uma concepção estético-funcional original. O Convento foi localizado na meia encosta de uma colina voltada diretamente para o mar e orientado para dominar as vistas do porto (o do Recife), do mar e da praia de Olinda. Por outro lado, a sua posição faz com que ele seja facilmente visto de diversos pontos estratégicos da cidade, especialmente do mar, da praia, do convento jesuíta e da catedral. A solução plástica dos volumes, da coberta e das superfícies arquitetônicas procurou tirar vantagem dessa posição estratégica. Hoje em dia, as vistas do convento constituem as imagens referenciais de Olinda no mundo e são utilizadas para mostrar as qualidades patrimoniais que justificaram a inclusão do centro histórico da cidade na lista do Patrimônio Cultural da Humanidade da UNESCO.

Em quarto, o convento possui um acervo azulejar de valor artístico único. Esse acervo é composto por vários painéis executadas em diversas fases históricas, configurando um conjunto excepcional quanto à representatividade das concepções estéticas por que passou essa arte no mundo luso-brasileiro, além de serem exemplares de excelente concepção artística e técnica, denotando o esmero com que foram concebidos eintegrados no conjunto arquitetônico.

Em quinto, deve-se ressaltar o inestimável valor histórico das pinturas do forro da nave da igreja de Nossa Senhora das Neves, da sacristia, da Capela de São Roque da Ordem Terceirapor representarem as diversas fases pelas quais o barroco, de seu início ao seu auge, se consolidou no Nordeste do Brasil Colonial

Por fim, a significância do Convento é complementada pelos valores artísticos excepcionais de alguns ambientes como a Sacristia, pela esmerada integração entre arquitetura, pintura de teto, decoração azulejar das paredes e mobiliário; a Capela de Santa Ana, pela integração entre exterior e interior edificado e pela luz natural e seus reflexos nas paredes decoradas com azulejos e no altar rococó; aCapela do Capítulo, por por representar as concepções artísticas e arquitetônicas dos franciscanos no século XVII; o claustro, por ser um ambiente arquitetônico síntese da concepção estética e espiritual dos franciscanos no Brasil Colônia. As dimensões do conjunto e dos elementos arquitetônicos seguem uma escala humana que, com as sombras das galerias e a luz difusa refletindo-se sobre os painéis de azulejos, conferem ao ambiente um caráter intimista e propício à reflexão.
 
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