O histórico das intervenções na construção

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Podem ser identificadas algumas fases relativas à construção do Convento. A primeira correspondeu às construções iniciais, entre a chegada dos franciscanos em 1585 e o abandono do convento por ocasião da invasão holandesa em 1630. A segunda fase iniciou-se com a reconstrução empreendida a partir de 1654, ano da expulsão dos holandeses, e estendeu-se durante todo o século XVIII, quando o convento atinge sua forma atual. Uma terceira fase acontece após as restrições das ordens religiosas impostas no final do período colonial, as quais levaram a um lento processo de declínio do convento ao longo do século XIX. A quarta fase foi inaugurada em 1937, com a criação do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (SPHAN, hoje IPHAN) e o tombamento nacional do convento no ano seguinte, quando ocorreu o reconhecimento oficial do valor histórico e artístico do convento, e as ações, com a ação direta ou supervisão do IPHAN, foram voltadas para a conservação e restauração.
Primeira fase: a chegada dos franciscanos e a ocupação inicial

Os franciscanos desembarcaram em Olinda no dia 12 de abril de 1585. O terreno doado para as primeiras instalações do convento detinha um forte declive para o litoral e isso iria determinar a lógica de crescimento do convento mediante ampliações que, na maioria das vezes, tiveram de recorrera aterros e à construção de muros de arrimo.

As primeiras construções recebidas pelos frades franciscanos não satisfaziam ao crescimento da ordem e logo foram iniciadas as ampliações. Esta ampliações foram feitas gradativamente até 1630, quando Pernambuco foi tomado pelos holandeses. É difícil precisar exatamente o que estava construído, mas uma análise dos mapas e gravuras produzidos na época da invasão holandesa pode fornecer importantes indicações sobre a configuração inicial do convento.

Figura 1.24: Gravura Marin D’Olinda, detalhe mostrando o Convento Franciscano
Figura 1.24: Gravura Marin D’Olinda, detalhe mostrando o Convento Franciscano

No detalhe da estampa intitulada Marin d'Olinda (Figura 1.24), observa-se um modesto conjunto em estilo chão português, uma arquitetura econômica e utilitária. As fachadas são sinceras e traduzem fielmente a volumetria do edifício.Em relação aos edifícios religiosos vizinhos, O Seminário dos Jesuítas e a Igreja da Sé, o conjunto franciscano apresenta-se mais modesto, embora os três monumentos apareçam em tamanho similar nos mapas da época, o que leva a concluir que o convento não era tão pequeno quanto se tem dito, mas sim que deveria ter um caráter mais horizontal, esparramando-se sobre o terreno (Figuras 1.25 e 1.26).

Figura 1.25: Mapa de Olinda de 1648 (detalhe) Figura 1.26:Mapa de Olinda de 1648 (detalhe)
Figura 1.25: Mapa de Olinda de 1648 (detalhe) Figura 1.26:Mapa de Olinda de 1648 (detalhe)

São claramente visíveis, na Figura 1.24, dois edifícios colados no corpo da igreja, saindo perpendicularmente em direção à encosta. Certamente construídos nessa primeira fase de obras, esses edifícios viriam a conformar o claustro. Durante a ocupação holandesa, o corpo da igreja estava definido, embora ainda sem a galilé, sem a sacristia e sem os elementos decorativos
Segunda fase: a reconstrução após a expulsão dos holandeses

O conjunto franciscano, como outros monumentos de Olinda, foi alvo de destruição pelos holandeses. Em 1654, logo após os holandeses assinarem a capitulação, os frades reocuparam o Convento e iniciaram sua reconstrução. Não há, em termos de documentos, meios de esclarecer a forma exata como ocorreu essa reconstrução, mas supomos que tenha aproveitado parte das paredes não destruídas. No entanto, a análise do edifício, mesmo sem prospecções maiores, pode indicar datas para partes da construção. Existem indícios de que parte das construções que rodeiam o claustro são anteriores a 1630 e há registros de que os painéis de azulejos do claustro, a última intervenção para finalizá-lo, foram aplicados entre os anos de 1734 e 1745 (Mueller, 1961: 35)

A fachada da igreja, como visto no item anterior, foi construída em etapas. A galilé era inicialmente saliente ao corpo da igreja e aberta para os lados. A parte superior dessa fachada teria uma solução mais sóbria, com o seu coroamento em frontão triangular e clássico. Com as obras de reconstrução iniciadas em meados do século XVIII, ela adquiriu a feição atual, incorporada ao corpo da igreja, com a parte superior da fachada apresentando seus elementos decorativos mais efusivos. Já em relação ao interior, sua capela-mor foi reedificada em torno de 1715 e os painéis de azulejos terminados em torno de 1745 (Jaboatão, 1858-62: 407-08). A igreja foi gradativamente recebendo elementos decorativos ao longo do século XVIII.

Em relação à sacristia, os elementos construtivos e arquitetônicos mostram que a construção teve sua conclusão por volta de 1660. O edifício da portaria, contendo a Capela de Santa Ana, e as duas bibliotecas, foi construído entre os anos 1753 e 1754, e possui uma grande unidade construtiva e decorativa. Tal unidade, aliada ao seu formato cúbico, permite distingui-lo claramente do resto da construção, já que aparece como engastado na antiga quadra do primeiro convento.

A Capela dos Terceiros Franciscanos teve sua construção iniciada em 1711, situada de forma perpendicular em relação à igreja da Ordem Primeira. O arco que emoldura a abertura da capela dos Terceiros para a nave da Igreja de Nossa Senhora das Neves foi revestido com uma bela obra de talha, de linguagem e execução eruditas da época de D. João V. A sacristia dos Terceiros, ao lado da capela, foi decorada com pinturas que remetem ao último quartel do século XVIII.

O atual bloco conventual pode ser datado como da segunda metade do século XVIII. Pressupõe-se que os frades, logo ao terminarem o claustro, tivessem ampliado aquela antiga quadra conventual com um novo bloco em direção ao sul, por meio de aterros e muros de arrimo para conformá-la àdeclividade da ladeira. Do lado do mar, junto à esse corpo, foi construída uma grande cisterna, com magníficas abóbadas de tijolos. Por cima dessas abóbadas, foi criado o terraço.

Portanto, pode-se concluir que após esse ciclo de obras de meados do século XVIII, e com os trabalhos de decoração efetuados até o final daquela centúria, o convento encontrou, em linhas gerais, a sua forma definitiva.
Terceira fase: declínio e estabilização no século XIX

Em 1855, o Império Brasileiro proibiu a admissão de noviços nas casas religiosas conventuais, fato que atingiu duramente os franciscanos, levando à decadência do convento. Essa decadência atingiu seu ápice no final do século XIX, quando o convento foi abandonado. Após a República permitir a vinda de religiosos estrangeiros, frades da Província Saxônica da Santa Cruz da Alemanha começaram a assumir os conventos (Mueller, 195: 140-1). No caso do convento de Olinda, os frades, ao assumirem em 1901, fizeram reparos e alterações internas, como a cozinha hoje existente no antigo pátio do bloco conventual e as celas individuais criadas por meio de divisórias onde existiam dormitórios coletivos. Os frades construíram ao longo do século XX novos edifícios anexos ao convento, como o salão Pio X (que ruiu em 1951), a atual lavanderia e depósitos
Quarta fase: conservação e restauro após o tombamento

Em 1937, foi criado o Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional e o Conjunto Franciscano de Olinda foi um dos primeiros a ser tombado, já em julho do ano seguinte. Esse fato demarcou uma nova fase na história do conjunto, pois, a partir dessa data, houve o reconhecimento oficial de seu valor histórico e artístico, a ação do governo federal, e a intencionalidade da conservação e restauração da edificação.

Foto 1.27: Renovação do telhado na década de 1940
Foto 1.27: Renovação do telhado na década de 1940

As primeiras obras não tiveram início imediatamente, mas em meados da década seguinte. O primeiro ciclo de obras foi concluído em 1949 e objetivava a renovação de estruturas de parte dos telhados (Foto 1.27), a renovação dos rebocos e a pintura e consertos de esquadrias. É importante salientar, entretanto que um edifício de tal magnitude sempre requisita novas obras à medida que os pontos mais críticos passam a ser sanados.De fato, mal terminavam as obras em uma parte do monumento e uma outra começava a necessitar de reparos.

O conjunto adentrou em um segundo ciclo de obras que se estendeu entre o início da década de 1950 e o final da década de 1960, embora com uma série de interrupções, como a documentação disponível no atual IPHAN e as crônicas do convento atestam. O período de 1953 a 1956 foi dos mais profícuos em termos de obras, incluindo a restauração de boa parte de seus bens artísticos, como talhas e azulejos (Foto 1.28). A restauração dos ornamentos da Capela da Ordem Terceira foi iniciada com a recuperação do forro em artezoados. Atacados pela salinidade, os azulejos estavam muito danificados nas partes próximas ao nível do piso (Foto 1.29). Na Capela da Portaria e no claustro os azulejos foram refixados. Os vazios de peças que faltavam foram preenchidos com massa, para evitar que pudessem ser retirados por furto (Livro de Crônicas: 251, 258). O IPHAN ainda empreendeu neste período a reforma do telhado e do madeiramento do andar superior, substituindo quase todas as traves, assim como boa parte das telhas. Os trabalhos prosseguiram nos anos seguintes com a reforma do telhado do bloco conventual e da sacristia, com a renovação do travejamento de sustentação do coro da igreja e do assoalho do bloco conventual.

Foto 1.28: Restauro de talhas
Foto 1.29: Azulejos danificados na sacristia
Foto 1.28: Restauro de talhas Foto 1.29: Azulejos danificados na sacristia

Um terceiro ciclo de obras pode ser identificado nos anos 80, com os grandes trabalhos de recuperação da sacristia. As grandes rachaduras nas paredes laterais e o forte desnivelamento do piso da sacristia, que já eram notados desde os anos 50, anunciavam o risco de colapso (Figura 1.30).Foram feitos trabalhos de consolidação de fundações, na qual que se aplicaram estacas profundas, tirantes inclinados e cintas de concreto armado, além da construção de uma base de concreto que suporta a sacristia (Figura 1.31). Todos os painéis de azulejos e foram desmontados e restaurados, assim como as pinturas forro de caixotões.

Foto 1.30: Rachaduras na Sacristia
Foto 1.31: Obras de consolidação da sacristia
Foto 1.30: Rachaduras na Sacristia Foto 1.31: Obras de consolidação da sacristia

Entre 1998 e 2005, um novo ciclo de obras inaugurou-se desta vez com recursos captados em boa parte pelo próprio convento. Em 1998 foi trocado todo o madeiramento do piso do bloco conventual, o qual se encontrava carcomido. Em 2004, o IPHAN refez toda a instalação elétrica do convento, a qual estava em estado precário e oferecia sérios riscos de incêndio. Em 2005, com recursos do Ministério da Justiça, foram trocadas todas as telhas da coberta, parte do madeiramento e introduzidas mantas durafoil para evitar o aparecimento de goteiras.
 
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