A significância do conjunto

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A importância da Igreja e do Convento de Nossa Senhora das Neves para o patrimônio cultural foi reconhecida em 1938, quando do seu tombamento, mas ainda não foi realizado um esforço para estabelecer a significância cultural do bem tomando-se como referência seus valores patrimoniais excepcionais e sua autenticidade. Esta é a tarefa desta secção.

O Conjunto Franciscano de Olinda sofreu intervenções de restauração e adaptações contínuas, algumas de grande vulto, durante a segunda metade do século XX, e teve grande parte de seus rebocos, telhas e estruturas de madeiras substituídos. Verifica-se que estas intervenções, em termos de restauro e conservação tiveram como orientação o uso de técnicas e materiais contemporâneos, algumas vezes de forma radical (e talvez necessária), como foi o caso das obras empreendidas na sacristia, nos anos 1980, onde predominou o uso do concreto armado. Os materiais e técnicas construtivas tradicionais foram desprezados, sendo evidente a perda de autenticidade desses segmentos. As intervenções foram marcadas por certa prudência devido aos poucos recursos financeiros disponíveis para as obras. No que se refere à contribuição dos trabalhos para a elaboração de uma história do edifício, tais intervenções pouco ajudaram, porque foram feitos poucos registros e anotações para esse fim.

Os conventos franciscanos no Brasil foram construídos em etapas, dependendo dos recursos disponíveis, por serem os frades da ordem mendicante. Por isso, observa-se que nem sempre os conventos possuíam uma composição regular, embora suas plantas nos dêem uma clara demonstração de unidade e coesão do projeto. O Conjunto Franciscano de Olinda é um exemplo disso, pois mesmo tendo sido edificado desde o século XVI, e resultado de uma série de adaptações, transformações e adições ao longo do tempo, conseguiu manter uma forte unidade arquitetônica. Além disso, o conjunto demonstra a adaptação ao terreno e ao entorno onde está inserido.Isso aconteceu porque a estrutura conventual possui uma lógica de crescimento que se mantém intacta desde seu início. Os registros iconográficos e históricos mostram que havia um lento e gradual crescimento por meio de alas que saíam do corpo da Igreja de forma perpendicular, e que se juntavam posteriormente formando um quadrado com um pátio interno, como foi visto no claustro e no pátio do bloco conventual.

Nesse sentido, a autenticidade do conjunto enquanto à forma arquitetônica, à implantação paisagística, à ornamentação e aos materiais e sistemas construtivos foi mantida. Observam-se, por outro lado, maiores perdas foram ocasionadas pela não-continuidade do uso das técnicas construtivas tradicionais. A declaração de significância que se segue fundamentou-se nos elementos autênticos do conjunto.

A declaração de significância
O Convento de Nossa Senhora das Neves possui valores que o fazem um dos mais significativos exemplares do patrimônio histórico e artístico do Brasil. Dentre os vários valores identificados do Convento, cabe ressaltar quatro que lhe conferem significância cultural exemplar.

Em primeiro lugar, ressalta o valor histórico de o convento ser o primeiro implantado em terras brasileiras no ano de 1585, ainda nos primórdios da colonização, tornando-o a matriz da expansão da ordem franciscana no território nacional.

Em segundo, o convento possui um valor artístico excepcional pela solução estética que integrou a paisagem, a implantação urbanística, a arquitetura e a ornamentação em um todo harmônico. O convento é um dos mais bem conservados e íntegros conjuntos da escola franciscana de arquitetura e decoração que se formou no século XVIII, que reformou e implantou vários conventos de grande qualidade no Nordeste brasileiro, seguindo uma concepção integrada entre paisagem, arquitetura, elementos decorativos, materiais e técnicas construtivas. Além do valor artístico, existe um valor cognitivo especial do convento como uma peça essencial para a compreensão do desenvolvimento da arquitetura luso-brasileira e da formação e desenvolvimento da escola franciscana de arquitetura na Colônia.

Em terceiro, cabe enfatizar o valor paisagístico do conjunto, como o caso excepcional de solução de integração arquitetônica em um ambiente urbano e natural extremamente complexo, segundo uma concepção estético-funcional original. O Convento foi localizado na meia encosta de uma colina voltada diretamente para o mar e orientado para dominar as vistas do porto (o do Recife), do mar e da praia de Olinda. Por outro lado, a sua posição faz com que ele seja facilmente visto de diversos pontos estratégicos da cidade, especialmente do mar, da praia, do convento jesuíta e da catedral. A solução plástica dos volumes, da coberta e das superfícies arquitetônicas procurou tirar vantagem dessa posição estratégica. Hoje em dia, as vistas do convento constituem as imagens referenciais de Olinda no mundo e são utilizadas para mostrar as qualidades patrimoniais que justificaram a inclusão do centro histórico da cidade na lista do Patrimônio Cultural da Humanidade da UNESCO.

Em quarto, o convento possui um acervo azulejar de valor artístico único. Esse acervo é composto por vários painéis executadas em diversas fases históricas, configurando um conjunto excepcional quanto à representatividade das concepções estéticas por que passou essa arte no mundo luso-brasileiro, além de serem exemplares de excelente concepção artística e técnica, denotando o esmero com que foram concebidos eintegrados no conjunto arquitetônico.

Em quinto, deve-se ressaltar o inestimável valor histórico das pinturas do forro da nave da igreja de Nossa Senhora das Neves, da sacristia, da Capela de São Roque da Ordem Terceirapor representarem as diversas fases pelas quais o barroco, de seu início ao seu auge, se consolidou no Nordeste do Brasil Colonial

Por fim, a significância do Convento é complementada pelos valores artísticos excepcionais de alguns ambientes como a Sacristia, pela esmerada integração entre arquitetura, pintura de teto, decoração azulejar das paredes e mobiliário; a Capela de Santa Ana, pela integração entre exterior e interior edificado e pela luz natural e seus reflexos nas paredes decoradas com azulejos e no altar rococó; aCapela do Capítulo, por por representar as concepções artísticas e arquitetônicas dos franciscanos no século XVII; o claustro, por ser um ambiente arquitetônico síntese da concepção estética e espiritual dos franciscanos no Brasil Colônia. As dimensões do conjunto e dos elementos arquitetônicos seguem uma escala humana que, com as sombras das galerias e a luz difusa refletindo-se sobre os painéis de azulejos, conferem ao ambiente um caráter intimista e propício à reflexão.
 
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